Arkona no Brasil: confira entrevista com a vocalista Masha Arkhipova

Publicado em 04/11/2013
Arkona: Da Rússia Para O Mundo

Por Marcos Garcia
Rock Brigade


Desde a queda do muro de Berlim, em 1990, uma invasão de bandas de metal vindas de trás da cortina de ferro, agora caída, está tomando o mundo. E algumas delas vêm da Rússia, o coração do antigo regime, e uma das mais conhecidas é o Arkona, que estará fazendo cinco shows de sua “Pagan Worldwide Tour”.

Aproveitando este fato, tivemos um tempo para poder falar com a banda sobre paganismo, seu passado, presente, e obviamente, sobre as expectativas para os shows no Brasil.

ROCK BRIGADE: Olá. Antes de tudo, obrigado pela entrevista! Vamos começar com uma pergunta bem clichê: como o Arkona foi formado, lá em 2002? E como o paganismo entrou em sua música?

MASHA ARKHIPOVA:
O Arkona foi formado exatamente da mesma forma como comumente ocorre com todas as bandas jovens, que desejam tocar música pesada: no porão do velho Palácio da Cultura soviético, com velhos equipamentos, e as pessoas não conseguiam tocar corretamente seus instrumentos. Então, o baterista de uma velha formação encontrou por si o tema de paganismo eslavo. Ele criou sua própria comunidade, e eu era um dos membros. Após algum tempo, todas aquelas pessoas se afastaram da ideologia pagã, e não estavam mais interessados em música. Foi por isso que nos separamos, e foi nessa mesma época que encontrei os caras do Rossomahaar, e dali por diante, ainda estamos tocando com eles.

RB: Uma das coisas mais surpreendentes no Arkona é seu país de origem, pois há menos de 15 anos, nunca se ouvia nada em termos de metal vindo da Rússia, mas agora, existem muitos nomes vindos de lá, um ataque metálico russo. Acredita que isso é uma consequência da queda do velho regime socialista? E se não for este o motivo, podem nos dizer qual seria a razão disso?

MA:
Honestamente, não estou acompanhando a cena metal russa, e realmente não imagino quem está indo bem agora. Mas estou orgulhosa que existam mais e mais nomes interessantes em nosso país. Mas realmente não sei o que teria causado isso. Pode ser pela derrota do velho regime socialista, ou talvez a mudança de prioridades e gerações. Talvez seja porque o estilo se tornou mais popular, com novos talentos. De qualquer forma, fico contente que vocês estejam sentindo que ele [o metal russo] está crescendo e espero que, logo, mais pessoas tenham a possibilidade de viajar para além de nossas fronteiras.

RB: Ainda falando da cena metal russa, uma grande parte dela é bem conhecida por estar ligada, de alguma forma, ao pagan metal. É apenas uma coincidência ou outro fator? E como estão sendo os shows na Rússia, e quais são as grandes cidades para o metal por lá?

MA:
Como disse antes, não conheço nada sobre como nossa cena está se desenvolvendo, especialmente o pagan metal. Honestamente, a cena ucraniana está mais próxima de mim, pois em meus primeiros passos musicais eu estava ouvindo música da Ucrânia. Conheço algumas bandas boas em Moscou, mas é difícil falar sobre bandas em todo o país. Talvez agora tenhamos mais e diferentes bandas folk do que bandas de metal com ideologia pagã. Podemos contar bandas de pagan metal com os dedos de uma única mão.

A situação dos shows é a mesma que em todos os lugares. As pessoas em Moscou e São Petesburgo são mimadas, pois muitas bandas famosas europeias e americanas estão tocando lá, e não são tão entusiasmados em ir a shows de bandas russas. Nas cidades pequenas e no campo, as pessoas não têm uma renda grande, e toda informação sobre o underground chega a elas com grande atraso. Este é o motivo das pessoas estarem escolhendo os estilos mais populares, como rock alternativo e outros assim. Bandas assim estão tendo uma boa audiência por lá, e o pagan metal e as bandas que estão tocando em estilos similares, não são populares, e algumas vezes, a plateia não é tão grande. Mas com uma boa promoção, o resultado também não é necessariamente ruim.

RB: Vocês têm cinco álbuns, mas desde Ot Serdtsa K Nebu (От Сердца к Небу), vocês se tornaram mais e mais conhecidos dos maníacos por metal por todo mundo. É por causa do trabalho de divulgação da Napalm Records? E por falar nisso, estão satisfeitos com o trabalho deles com o Arkona?

MA:
Claro, acho que a Napalm foi uma grande influência em nosso crescimento pelo mundo. Durante todo nosso período de colaboração, nunca ficamos desapontados. Eles sempre estão nos dando liberdade total, compreendendo nossa posição e são realmente pessoas ótimas, com as quais é sempre agradável sair quando vêm aos nossos shows. E antes que isso aconteça, sempre brincamos, dizendo que “hoje temos que tocar bem, pois os patrões estão vindo!” (risos)

RB: De algumas maneiras, o antigo governo russo nos anos 80 era ateu, então a religião e o folclore eram dois pontos que, provavelmente, estavam fora das escolas. Como vocês puderam resgatar algo sobre seu folclore? E sobre do folclore russo, pode nos falar um pouco dele, sobre sua mitologia e velhas lendas?

MA:
Quando a União Soviética foi destruída, eu tinha 9 anos. Eu me lembro desse dia claramente. Eu estava saindo de casa para a Casa Branca [NR.: de Moscou, também chamada Câmara Branca, é um edifício governamental da Rússia, atualmente sede do governo do país. Não confundam com a versão norte-americana.] para ver como eles estavam atirando. Eu estava andando em ruas absolutamente vazias, sozinha, e vi tanques bem perto de mim, indo na mesma direção que eu! Depois fui até o trabalho de minha mãe, e ela estava surpresa por eu estar andando sozinha por Moscou durante o toque de recolher! Lembro-me das pessoas ao meu redor, contando com orgulho que eu estava apertando a mão de N. N. Eltsin – a mão esquerda, não sei porquê. É claro, eu não me lembro se o folclore era dado nas aulas ou não. Eu quero dizer que a mitologia que conhecemos em nossos dias não é a velha e genuína história de nosso país. Todo o material foi reescrito e quase não existem informações verdadeiras. A única fonte que foi salva é do século XII, de uma Rússia já cristianizada, chamada “Slovo o polku Igoreve”. Os outros materiais, que na maioria são livros de autores modernos, são apenas contos de fada, nada mais. Eu crio canções baseadas em minha própria filosofia, visão de mundo, sem nenhuma mitologia, e estou usando nomes antigos de deuses, mundos, nomes de coisas filosóficas ou místicas daquelas eras.

RB: As letras são sempre apresentadas em seu idioma, e é difícil para todos nós entendermos o cerne de sua mensagem. Vocês não planejam cantar em inglês em um futuro próximo, ou acreditam que isso pode causar danos a mensagem aos seus fãs? E por falar nisso, qual é o centro de sua mensagem para as pessoas de fora da Rússia?

MA:
Estamos tentando fazer pequenas traduções de nossas letras para o inglês em nossos encartes, então o ouvinte poderá entender o que estamos cantando e sentir a atmosfera da canção. Conheço muito pouco da língua inglesa, e minha opinião é de que qualquer forma de arte é melhor produzida em seu próprio idioma. É por isso que usaremos apenas o idioma eslavo em nossas canções.

Cada pessoa está encontrando em nossas músicas algo que é próxima a ela, dela própria. Eu estou cantando sobre os problemas que afetam não apenas nossa nação, mas o mundo todo. O mundo moderno está indo lentamente para o túmulo por muitos motivos. E todos eles estão em minhas canções. A música cria a atmosfera sobre algo que quero dizer. As pessoas estão sentindo isso e indo comigo. A música é a alma, em primeiro lugar. Se você ama alguém, não é por que ela é boa ou má, bela ou esperta, mas pela alma dela. O mesmo ocorre com a música. Se alguém ama a nossa banda sem ler as letras, então elas serão mais interessantes e valiosas quando as ler. Eu acredito que aquela pessoa que não gosta de nossa música nunca entenderá o que estamos fazendo e o porquê de fazermos desta forma. Não precisamos dessas pessoas, e elas não precisam de nós. Você não precisa saber o que é, apenas sentir.



RB: A música do Arkona é bem complexa, com um approach musical bem distante de outras bandas de pagan metal, mesmo de fora de seu país natal. Como é o processo de composição? E como trabalham nas letras? E por falar nisso, me permita dizer: você, Masha Arkhipova, tem uma voz incrível e muito bela.

MA:
Obrigada! É um grande honra ouvir isso! Eu crio a música em diferentes momentos de minha vida. Pode ser na floresta, metrô, nas turnês, ou apenas me banhando e mesmo dormindo. A música sempre me vem de forma inconsciente, como se alguém quisesse passá-la para a minha cabeça! Quando isso acontece, eu imediatamente gravo em algo (telefone, computador). Então, usando o Cakewalk 9 [NR.: um software], faço todos os arranjos para todas as partes instrumentais. Quando é suficiente para um álbum, começo a criar as letras. Tenho que estar com certo tipo de estado de espírito para isso. Devo estar só, e não é permitido a ninguém vir até o meu mundo, pois se alguém me tirar do meu mundo, não poderei voltar a ele imediatamente, apenas quando tiver com o mesmo estado de espírito.

RB: falando um pouco sobre Slovo (Слово), o álbum recebeu ótimas resenhas no mundo todo, a maior parte devido ao trabalho com a Orquestra de Câmara do Conservatório Estadual N.G. Zhiganov, de Cazã, do Coral de Estudantes do Conservatório Estadual de Moscou. Como foi trabalhar com eles em estúdio? E há planos de trabalhar de novo com eles, ou com outra orquestra?

MA:
Todos eles são profissionais! E foi uma grande honra trabalhar com eles em estúdio e nos shows em Moscou. Nossas novas canções não terão sem orquestra e corais, mas ficaremos felizes em trabalhar com eles no futuro.

RB: Por falar nisso, Slovo (Слово) foi lançado em 2011, então acreditamos que o momento de lançar um novo disco está chegando, estamos certos? Podem nos dizer como as coisas estão indo por agora, e quando o novo CD deve sair? E nos perdoe pela ansiedade, mas pode nos dizer qual o título dele?

MA:
Todos os instrumentos já estão gravados, e existem algumas poucas músicas, mas iremos gravar os teclados e algumas coisinhas. Então, estaremos com tudo pronto até o final desse mês [NR. Esta entrevista foi concedida em Outubro]. Temos planos de lançar o novo disco no inverno de 2014 [Dezembro de 2013 a março de 2014], mas estamos um pouco sem tempo, então o lançamento pode ser adiado em alguns meses. Sobre as canções, não temos boas notícias para os fãs de canções como Stenka na Stenku e Yarilo no novo álbum. Serão músicas de um tipo diferente, as mais sombrias de nossa história. As novas músicas são bem diversificadas, mas todas são diferentes das músicas complexas e épicas de nossos últimos discos. As letras serão sobre destruir nosso mundo e começar o novo, uma mudança de eras e pontos de vista. O nome do novo álbum é Yav. Isto quer dizer “nosso mundo”, onde estamos vivendo com vocês. Alguns vão gostar, outros não, mas para mim, é um amálgama de tudo que está acumulado em meu espírito. É a criação mais pessoal e honesta de minha vida.

RB: Com a fama crescente do Arkona, fica claro que, mais cedo ou mais tarde, vocês tocariam na América do Sul, especificamente no Brasil. O que esperam desses shows aqui? As pessoas ficaram bastante excitadas e felizes quando seus shows aqui foram confirmados…

MA:
Já tocamos no Brasil uma vez, e temos muitas boas memórias dos shows e de todas as pessoas que vieram aos shows. E estamos ansiosos para voltar!

RB: Agradecemos muito por sua gentileza. Deixe sua mensagem.

MA:
Obrigado pelas perguntas interessantes! Nos vemos em breve!

Autor: Homero Pivotto Jr.
Fonte: Abstratti Produtora