Psychotic Eyes: entrevista exclusiva com vocalista e guitarrista Dimitri Brandi

Publicado em 28/10/2016


Embora a ortodoxia prevaleça entre a maioria das bandas brasileiras de death metal, o Psychotic Eyes sempre foi um personagem antagônico a qualquer padrão pré-estabelecido. Sua música é uma experiência profunda que se desenvolve a partir de diferentes referências musicais. A complexidade do rock progressivo, a técnica do jazz, o ritmo da música brasileira, todos esses elementos se juntam num caldeirão death/thrash metal.  

Formada em 1999, o Psychotic Eyes lançou duas demos antes do seu disco de estreia autointitulado de 2007. Quatro anos se passaram, período esse que a banda dividiu entre algumas apresentações ao vivo e processos de composição, até que foi lançado o mais recente álbum da banda, “I Only Smile Behind The Mask”. 
 
Em entrevista exclusiva ao Agenda Metal, o vocalista e guitarrista Dimitri Brandi nos conta algumas curiosidades sobre a banda, sua história e o que vem por aí. Confira!



Por Priscila Ramos


A Psychotic Eyes está para lançar o primeiro álbum acústico de death metal da história, intitulado “Olhos Vermelhos”. Como surgiu a ideia desta obra e como está sendo o processo de gravação? 

Dimitri Brandi:
Estamos sem baterista há alguns anos, desde que o Alexandre Tamarossi, que fundou a banda comigo, anunciou que nos deixaria. Desde então iniciamos uma luta desesperada para encontrar um substituto, o que nunca aconteceu. Está quase impossível viver de música no Brasil, o que desanima qualquer músico com um nível técnico elevado a embarcar em novos projetos. No caso do Psychotic Eyes isso ficou ainda mais complicado, pois nossas músicas são extremamente difíceis, exigem muito de um baterista, mas nosso som é completamente underground. Nunca tivemos uma agenda de shows lotada e quase nunca recebemos cachê. “Tocar por paixão” só tem sentido em determinados momentos favoráveis da vida, e atualmente a situação não está fácil pra ninguém. Assim sendo, tocar numa banda como o Psychotic Eyes demanda muito trabalho e investimento, mas como o retorno é zero, não surgiu, nesses anos, nenhum baterista que comprasse nossa ideia e quisesse entrar pra banda. Estávamos quase desistindo quando o Luiz Carlos Barata, grande poeta de São Paulo, anunciou o projeto “ainda respira”: uma coletânea com bandas brasileiras independentes, para mostrar para todos que o rock brasileiro poderia estar agonizante, mas ainda estava vivo. O Psychotic Eyes seria a única banda de metal extremo na compilação, o que nos honrou muito. Ele teve a ideia de fazer um show de lançamento. Eu não queria deixar aquela oportunidade passar, mas havia o problema da falta de baterista. Então eu e o Douglas sentamos, quebramos nossas cabeças e bolamos esse projeto acústico. Reescrevemos algumas de nossas músicas para o formato de dois violões e decidimos arriscar. No dia do show estávamos uma pilha de nervos, super ansiosos. Eu temia uma enorme vaia, o que felizmente não aconteceu. O público adorou o show e todos os comentários que recebemos foram extremamente positivos. Por isso decidimos imortalizar o formato e gravar logo um álbum de death metal acústico, que vai ser o primeiro do mundo .

 

Qual é a previsão de lançamento deste novo disco?  

Dimitri: Eu já dei várias previsões e errei todas. Estou pior do que aqueles videntes gurus que a imprensa insiste em entrevistar todo final de ano, que dizem que o Ayrton Senna vai ser campeão e a cura do câncer vai ser descoberta por um brasileiro. O que aconteceu é que a gravação do disco enrolou, pois se mostrou muito mais difícil do que o esperado. Não é fácil adaptar arranjos de death metal, baseados em guitarra distorcida e bateria ultra rápida, pegar isso tudo e tocar somente com dois violões. Além disso, sou um guitarrista de metal extremo, acostumado a descer a mão nas cordas. Isso se torna um desastre quando você está tocando violão. A cacofonia e a barulheira ficam incontroláveis. Isso tudo me surpreendeu muito e me mostrou que não importa a experiência que você tem, eu toco guitarra há mais de trinta anos, sempre temos muito a aprender e podemos nos surpreender com o inesperado.




 

Os shows manterão o formato acústico ou há planos de incluir a bateria novamente?

Dimitri: Meu desejo é completar a formação com um baterista. Mas, enquanto isso não acontece, vamos fazer apresentações acústicas. Algumas músicas ficaram tão interessantes que creio serão parte de um mini set acústico inserido nos shows, baseados no set normal, elétrico, pesado e brutal, com um baterista. Mas para isso acontecer temos que completar a formação. Se algum baterista insano estiver nos lendo, entre em contato. Basta gostar de música maluca, ter influências variadas e o desejo de tocar algo brutal, técnico e bem trabalhado.
 

Diferentemente dos álbuns anteriores, Psychotic Eyes e I Only Smile Behind the Mask, o nome do novo trabalho é em português. Qual é a ideia por trás do título Olhos Vermelhos?

Dimitri: “Olhos vermelhos” é o nome de uma música que escrevemos em cima de um poema do Barata. Ele escreveu os versos pensando na banda. Assim que li vi que aquilo era facilmente musicável e bolei um arranjo. Eu já havia musicado letras de outras pessoas antes. No nosso disco “I Only Smile Behind the Mask” temos “Throwing into Chaos”, escrita em cima da letra do Adriano Villa, poeta que escreveu as letras do projeto “Hamlet”, aquela obra prima do metal brasileiro lançada pela Die Hard. Desta vez a dificuldade era trabalhar em português, língua que eu havia explorado em algumas frases mas nunca tinha trabalhado com uma letra completa. Eu até tinha um certo preconceito idiota com a nossa língua, como se ela não servisse pro metal. Estava enganado e me arrependo disso, é fantástico trabalhar com as palavras que as pessoas realmente entendam e que deixam fácil transmitir a mensagem que queremos passar. As letras se tornaram um aspecto essencial do meu trabalho, eu coloco muito do meu sentimento nelas. Mas como sempre escrevi em inglês, poucos são os que comentam. Em entrevistas, por exemplo, me perguntam sobre o que fala cada música. Se as letras fossem realmente lidas e entendidas, ninguém perguntaria isso, mas indagariam outros assuntos, criticariam, discordariam das minhas ideias. Como estão em inglês, cria-se uma barreira na comunicação, o que não favorece a arte.
 

Além do lançamento do novo álbum, quais são os próximos planos e projetos da banda? Existe a possibilidade da gravação de um DVD ao vivo ou planos para uma turnê nacional ou internacional?

Dimitri: Plano nenhum. Vou ser bem sincero contigo: ninguém compra DVDs de bandas brasileiras mais. Nem CDs. Os amigos e um ou outro aficionado, mas isso não paga os custos de produção, então não compensa fazer planos de um lançamento físico. Vamos focar em lançamentos digitais mesmo, que as pessoas possam ouvir e divulgar nosso trabalho. Quanto a turnês, é a mesma coisa, eu adoraria fazer uma tour pelo nordeste do Brasil ou pela Europa, mas até o momento nunca conseguimos viabilizar um projeto desses financeiramente.




 

Quais as bandas que vocês estão ouvindo ultimamente?

Dimitri: Eu ouço de tudo. Meu estilo favorito é o metal, não só o extremo. Este ano ouvi muito David Bowie, pela perda irreparável que foi sua morte e pelo disco absolutamente perfeito que ele lançou, o “Blackstar”. Tenho ouvido muito Uriah Heep, Manowar, bandas novas como Clutch, Crobot e Kylesa, as preferidas de sempre Iron Maiden, Death, Dissection e My Dying Bride, os discos novos do Amon Amarth, Borknagar, Rebaellium, Vektor, Death Angel... Segundo o Spotify, os artistas que mais tenho tocado recentemente são Sonic Youth, Siouxsie and the Banshees, Death Angel, Kreator, Wilco, Pink Floyd, Depeche Mode, MOnkey3 e Deicide. Acho que isso me resume bem!
 

Muito obrigada pela entrevista, deixo o espaço livre para que enviem uma mensagem aos leitores do Agenda Metal.

Dimitri: Muito obrigado ao Agenda Metal pelo espaço, desculpe a demora nas respostas, eu estava bem enrolado com compromissos familiares, profissionais e da banda nesses últimos dias. Imagino como deve ser difícil trabalhar com um zine virtual da qualidade do Agenda Metal e ainda depender da agenda enrolada de músicos como eu! Ao leitor, muito obrigado por ter dedicado alguns minutos para ler sobre o Psychotic Eyes, eu espero produzir a melhor música extrema possível. Acompanhe a banda nas redes sociais, nosso som está no Spotify, Deezer, YouTube, iTunes etc. Querendo entrar em contato, estamos sempre à disposição! Mantenham a bandeira do metal viva, nesses dias tão difíceis de crise econômica, intolerância, violência e ódio. Felizmente, esses são os sentimentos que sempre inspiraram as bandas de metal a produzir a melhor música que existe.

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