No último sábado, 3 de outubro, São Paulo recebeu mais um capítulo da longa relação entre o público brasileiro e o Sonata Arctica. A banda finlandesa desembarcou na capital paulista com a 30th Anniversary Tour, turnê comemorativa de três décadas de carreira, para uma apresentação na Audio que reuniu nostalgia, emoção e, principalmente, uma grande demonstração de superação de Tony Kakko.
Antes da celebração finlandesa, porém, coube ao Noturnall preparar o terreno. E chamar a banda simplesmente de “abertura” talvez seja pouco diante da experiência reunida no palco. Liderado por Thiago Bianchi, o grupo brasileiro entrou pontualmente às 20h e encontrou uma Audio já bastante receptiva, aproveitando o tempo disponível para entregar uma apresentação intensa, pesada e tecnicamente muito segura.
“Try Harder” foi escolhida para iniciar o set e funcionou bem como cartão de visitas para quem talvez ainda não estivesse familiarizado com o trabalho da banda. Desde os primeiros minutos, ficou evidente a disposição do Noturnall em aproveitar cada minuto daquela apresentação. Na sequência, “No Turn at All” manteve a energia elevada, com Thiago Bianchi assumindo não apenas os vocais, mas também o papel de principal interlocutor com o público.
A formação que esteve no palco — Thiago Bianchi nos vocais, Guilherme Torres na guitarra, Saulo Xakol no baixo e Henrique Pucci na bateria — mostrou bastante entrosamento. Musicalmente, o Noturnall transita por um metal moderno e pesado, mas sem abandonar elementos melódicos e progressivos, característica que tornou a escolha da banda para aquela noite particularmente interessante. Não se tratava de tentar reproduzir a sonoridade do Sonata Arctica, mas de oferecer ao público uma apresentação com identidade própria antes da atração principal.
“Sugar Pill” e “Shadows” deram continuidade ao repertório e ajudaram a mostrar diferentes nuances do grupo, enquanto “Shallow Grave” manteve a intensidade da apresentação. O peso da cozinha formada por Saulo e Henrique ganhou bastante destaque ao vivo, enquanto Guilherme Torres conduziu as guitarras com precisão e Thiago Bianchi, como de costume, alternou os momentos mais técnicos com uma postura bastante expansiva à frente da banda.
Essa proximidade com o público, aliás, acabou se tornando uma das marcas da apresentação. Bianchi conversou bastante com a plateia e não economizou energia. Em um dos momentos mais espontâneos do set, decidiu se jogar sobre o público em um stage diving, arrancando uma reação imediata de quem estava próximo ao palco. Depois, ainda brincou sobre a experiência, reforçando o clima descontraído que se estabeleceu entre banda e plateia.
Foi justamente essa combinação entre execução técnica e espontaneidade que fez a apresentação funcionar tão bem. Muitas vezes, em noites com uma atração internacional aguardada por um público fiel, existe o risco de a banda responsável pela abertura encontrar uma plateia impaciente, apenas esperando pelo nome principal. O Noturnall conseguiu ultrapassar essa barreira rapidamente. Conforme o repertório avançava, a resposta do público se tornava cada vez mais calorosa.
“Scream! For!! Me!!!” levou o show para sua reta final mantendo o peso e a intensidade, até que “Nocturnal Human Side” encerrou a participação do grupo. Foram apenas sete músicas, mas apresentadas sem espaços desperdiçados e com a sensação de uma banda confortável naquele palco.
Mais do que simplesmente preencher o horário anterior ao Sonata Arctica, o Noturnall conseguiu construir seu próprio momento dentro da noite. Para quem já acompanhava a banda, foi uma oportunidade de reencontro; para parte do público que estava ali principalmente pelos finlandeses, funcionou como uma apresentação bastante convincente do grupo brasileiro.
E, sobretudo, deixou o ambiente exatamente como uma boa banda de abertura deve deixar: aquecido, participativo e pronto para aquilo que viria a seguir.
Quando chegou a hora dos finlandeses, havia uma preocupação adicional pairando sobre a apresentação. Apenas três dias antes, em 30 de setembro, o Sonata Arctica havia sido obrigado a cancelar o show que faria em Montevidéu, no Uruguai. Tony Kakko enfrentava um quadro de laringite aguda que, segundo as informações divulgadas pela produção local, havia comprometido não apenas sua capacidade de cantar, mas até mesmo de falar. A apresentação uruguaia chegou a ser adiada enquanto se buscava uma possibilidade de realizá-la, mas acabou definitivamente cancelada por orientação médica.
Por isso, ver Tony no palco em São Paulo tão poucos dias depois já tinha um significado especial.
“I Have a Right”, de Stones Grow Her Name (2012), abriu a apresentação e mostrou desde o início que a proposta não seria seguir uma retrospectiva cronológica. Logo depois veio “Black Sheep”, trazendo o público diretamente para Silence (2001), um dos discos mais queridos da carreira do Sonata Arctica. “Paid in Full”, de Unia (2007), ocupou a terceira posição, antes de mais um retorno a Silence com “Last Drop Falls”.
Foi também durante esses primeiros momentos que ficou claro que Tony ainda não estava completamente recuperado. Em alguns trechos, o vocalista demonstrava cansaço e chegou a cantar sentado. Considerando o quadro apresentado poucos dias antes, entretanto, sua entrega impressionou. Mais curioso ainda foi perceber que Tony não tentou simplesmente preservar a voz eliminando toda a comunicação entre as músicas. Muito pelo contrário: ele falou bastante durante o show.
Tony conversou com os fãs, contou histórias, fez brincadeiras e transformou os intervalos entre as canções em parte importante daquela apresentação. Chegou até a autografar o tênis de uma fã próxima à grade. Em diversos momentos falou sobre os 30 anos do Sonata Arctica e agradeceu ao público que tornou possível uma trajetória tão longa. Afinal, nenhuma banda chega a três décadas de carreira apenas lançando discos. É necessário que exista alguém do outro lado ouvindo, comprando ingressos, cantando as músicas e continuando presente depois de tantos anos.
A sequência do repertório também começou a mergulhar cada vez mais fundo na memória afetiva dos fãs. “Tallulah” proporcionou um dos momentos mais emocionais do show. Poucas músicas representam tão bem o lado sentimental do Sonata Arctica, e poucas precisam de tão pouco esforço para fazer uma plateia inteira assumir parte dos vocais. Em uma noite na qual Tony naturalmente precisava administrar sua voz, ouvir centenas de pessoas cantando junto ganhou um significado ainda maior.
Logo depois veio “8th Commandment”, de Ecliptica (1999), levando a Audio diretamente aos primeiros anos da banda e ao power metal veloz que ajudou a definir sua identidade. O repertório então avançou quase duas décadas com “Closer to an Animal”, de The Ninth Hour (2016), antes de retornar novamente às origens com uma das músicas mais emblemáticas do primeiro álbum: “Letter to Dana”.
“White Pearl, Black Oceans…”, do excelente Reckoning Night (2004), trouxe outro tipo de Sonata Arctica. Longa, dramática e praticamente cinematográfica, a faixa representa muito bem o momento em que a banda começou a ampliar seus horizontes para além das estruturas mais tradicionais do power metal. Sua presença fazia especialmente sentido em uma turnê retrospectiva, justamente por mostrar uma das diferentes facetas construídas pelo grupo ao longo dessas três décadas.
Na sequência, “Shy” voltou a conduzir a apresentação para um território mais intimista. Originalmente lançada no EP Successor, em 2000, é uma daquelas músicas que talvez não tenha a dimensão de alguns dos grandes hinos da banda, mas carrega enorme valor afetivo para quem acompanha o Sonata Arctica há muitos anos.
Então chegaram as primeiras notas de “FullMoon”.
E algumas músicas simplesmente dispensam explicações.
Um dos maiores clássicos da carreira do Sonata Arctica, “FullMoon” reúne praticamente todos os elementos que transformaram a banda em uma referência do gênero: velocidade, melodias marcantes, dramaticidade e um refrão feito para ser cantado por uma multidão. A resposta da Audio foi imediata e, se havia uma música que obrigatoriamente precisava estar em uma comemoração de 30 anos, era essa.
Após uma breve saída do palco, a banda retornou para o bis com “The Last Amazing Grays”, de The Days of Grays (2009). Depois veio “Don’t Say a Word”, um dos grandes momentos finais da noite e uma música que continua funcionando perfeitamente ao vivo mais de duas décadas depois de seu lançamento em Reckoning Night. Por fim, como já virou tradição nos shows do Sonata Arctica, “Vodka” transformou os últimos minutos em uma grande confraternização entre banda e fãs.
E então acabou.
Talvez essa tenha sido a única grande ressalva da noite: o show foi curto demais.
Foram apenas 14 números se contabilizarmos “Vodka”, sendo 11 músicas antes do encore. Para uma apresentação convencional, seria possível aceitar com mais facilidade. Para uma turnê criada especificamente para celebrar os 30 anos do Sonata Arctica, porém, ficou inevitavelmente a sensação de que havia muita história ainda por contar.
Algumas ausências foram especialmente sentidas. “Victoria’s Secret”, por exemplo, chegou a aparecer em outras apresentações desta mesma etapa latino-americana, mas ficou de fora em São Paulo. E quando falamos de uma celebração de 30 anos, é difícil não imaginar espaço também para clássicos como “Replica”, “Wolf & Raven”, “San Sebastian” ou “The Cage”. Poderíamos continuar acrescentando nomes à lista e provavelmente cada fã faria suas próprias escolhas.
Esse é, naturalmente, o problema de qualquer turnê retrospectiva: quando uma banda possui três décadas de história, nunca haverá tempo para tocar tudo o que todos querem ouvir.
Ainda assim, seria injusto permitir que essa ressalva diminuísse o que aconteceu naquela noite.
A apresentação teve algo que dificilmente pode ser colocado em números ou medido pelo tamanho de um setlist: conexão.
Depois de tantos anos, músicas como “Tallulah”, “Letter to Dana”, “FullMoon”, “Black Sheep” e “Don’t Say a Word” deixaram de pertencer exclusivamente aos discos em que foram lançadas. Para muitos fãs, elas estão associadas à adolescência, a relacionamentos, viagens, amizades e diferentes momentos da própria vida. São músicas que envelheceram junto com quem as escuta.
E Tony Kakko parece compreender perfeitamente essa relação.
Talvez por isso tenha falado tanto naquela noite. Talvez por isso tenha agradecido tantas vezes. E talvez por isso a resposta do público tenha sido tão forte justamente nos momentos em que sua voz precisava de ajuda.
Elias Viljanen, Pasi Kauppinen, Henrik Klingenberg e Tommy Portimo completaram uma formação extremamente segura e entrosada, oferecendo a sustentação necessária para uma apresentação em que, inevitavelmente, boa parte da atenção estava concentrada nas condições do vocalista.
O Sonata Arctica encerrou assim sua passagem pela América Latina comemorando 30 anos diante de um público que também faz parte dessa história. Foi uma noite de nostalgia, proximidade e, principalmente, superação.
No fim, mais do que a duração do show ou as músicas que ficaram de fora, o que permaneceu foi a força daquele encontro. A Audio cantou, respondeu, acolheu e ajudou a conduzir a apresentação nos momentos em que Tony precisou dividir o esforço. E o Sonata Arctica retribuiu com presença, sinceridade e uma performance capaz de reafirmar por que continua tão importante para o público brasileiro.
Se a noite terminou deixando a sensação de que ainda havia muito a celebrar, isso também revela que a história da banda está longe de parecer encerrada. Aos 30 anos, o Sonata Arctica continua capaz de reunir diferentes gerações, revisitar seu passado com emoção e olhar para frente com novas possibilidades.
Naquela noite, o público não recebeu apenas uma retrospectiva. Recebeu uma prova de que essa relação continua viva — e de que ainda há muitos capítulos, músicas e encontros pela frente.
Setlist – Sonata Arctica: “I Have a Right”, “Black Sheep”, “Paid in Full”, “Last Drop Falls”, “Tallulah”, “8th Commandment”, “Closer to an Animal”, “Letter to Dana”, “White Pearl, Black Oceans…”, “Shy”, “FullMoon”, “The Last Amazing Grays”, “Don’t Say a Word” e “Vodka”.
Sonata Arctica
Setlist – Noturnall: “Try Harder”, “No Turn at All”, “Sugar Pill”, “Shadows”, “Shallow Grave”, “Scream! For!! Me!!!” e “Nocturnal Human Side”.
Noturnall
Por: Bárbara Matos
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