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Steven Wilson em São Paulo no Via Marquês

Publicado em 25/04/2012


STEVEN WILSON
Via Marquês - São Paulo/SP
21 de Abril de 2012

Por Ernesto Gennari Neto


21 de Abril em São Paulo. Um sábado de outono com o frio característico do começo da estação, segundo e último dia do problemático Metal Open Air e também dia de Steven Wilson (sim, mente criativa por trás de projetos de rock progressivo aclamados pelo público e crítica como Porcupine Tree, No-Man, Incredible Expanding Mindfuck – IEM –, Bass Communion, Continuum e Blackfield, além de produzir Anathema e Opeth, sendo que tem um projeto com o vocalista da última, Mikael Åkerfeldt, chamado de Storm Corrosion) fazer seu ÚNICO show no Brasil na turnê de Grace For Drowning, seu segundo álbum solo. O show estava marcado para começar às 18:00, então com um pouco de antecedência estava na fila, no frio, mas contente por ver um show onde era VETADO o uso de câmeras de qualquer tipo, se usado qualquer artifício do tipo, o usuário seria “convidado a se retirar da casa”. Quem foi no Roger Waters sabe muito bem o quanto disparos de flashes ATRAPALHAM shows com projeções visuais, e de cara, ao entrar no Via Marquês pude ver uma cortina meio que transparente na frente do palco, e nela eram projetados vídeos e fotos de Lasse Hoile, colaborador de Steven Wilson que trata todos os conceitos gráficos de seus projetos; enquanto isso, no PA, nada de músicas, mas sim sons estranhos, ruídos e barulhos de ambiente. Não sei se devido ao festival no Maranhão muitas pessoas deixaram de ver este show (a casa não estava cheia, nem vazia, mas tinha bastante espaço para circular), mas o que direi a seguir tentará explicar o que está sendo considerado um dos melhores shows áudio-visuais da atualidade no rock.

Pontualmente, a banda entrou, de maneira musical, fazendo a introdução para a música “No Twilight Within the Courts of the Sun” (do álbum “Insurgentes”), entrou Marco Minnemann (baterista, que veio com o Kreator em 2009, substituindo temporariamente Jürgen Reil, “Ventor”, que não pode fazer a turnê do álbum “Hordes Of Chaos” por causa de problemas pessoais) fazendo uma batida lenta para a pulsação, em seguida sobe Nick Beggs (baixista, que detonou com acordes pesadíssimos ao longo do show no seu Chapman Stick e linhas de baixo de cair o queixo) dando continuidade no ritmo, então entra Adam Holzman (teclados e sintetizadores, famoso por sua musicalidade e técnica e também por ter sido músico da banda de Miles Davis, assim como seu diretor musical) fazendo a ambiência. Após estes segue-se a entrada de Theo Travis (metais: flauta, saxofone, clarinete; conhecido pelo seu extenso currículo em bandas de jazz e rock progressivo, incluindo Gong e Robert Fripp) e logo depois, Niko Tsonev (prodígio das guitarras, efeitos visuais, projeções e som quadrafônico). A banda dá o tom da música e Steven Wilson entra. A banda é afiadíssimo e muito técnica, mas ao invés de cair no paradigma clássico das bandas de rock progressivo que se aventuram a misturar com heavy metal, técnica não é a parte mais impressionante. O show continua por traz da cortina (lembra dela?) que fica passando projeções que se conectam com as músicas longas, reflexivas e perturbadoras. Então vem a segunda música, “Index” (de “Grace For Drowning”), já com Steven alternando entre guitarra e teclado, enquanto canta. A platéia está hipnotizada, é raro ver um celular ou uma câmera tentando captar algo, mas é comum ver pessoas estáticas e atenciosas a cada detalhe e iluminação, como na música seguinte, “Deform to Form a Star” (também de “Grace”, o segundo álbum), onde além das projeções, os canhões de luz dão um efeito psicodélico projetando sombras da banda na cortina. Então vem “Sectarian” (“Grace For Drowning”), onde começa o peso, de repente (depois quase meia hora de show) aparece um ruído de TV na cortina e a banda some nele, AÍ A CORTINA CAÍ! A banda coloca peso e a platéia delira, muitos cantam. O show segue com projeções no fundo e na banda, a alta musicalidade prossegue com “Postcard” e a viagem continua com solos etéreos de guitarra e metais. Segue o show com “Remainder the Black Dog” e “Harmony Korine” (esta de “Insurgentes”) e Steven Wilson começa a se comunicar com a platéia, o mínimo necessário, mas muito simpático, enquanto a banda está só sorrisos e sendo ovacionada. Então vem “Abandoner” (“Insurgentes”) e “Like Dust I Have Cleared From My Eye” (“Grace For Drowning”) e Steven fala que estão muito felizes de fazerem estes shows pela América do Sul, principalmente no Brasil, que é a primeira vez. Então vem o convite dele para nos juntarmos a mais uma música longa, só que uma nova, ainda não lançada, chamada “Luminol”, onde Marco Minnemann simplesmente DETONA, mas o destaque fica mesmo para Theo Travis que ao longo da música toca seus três instrumentos e rouba a cena (coisa que fez ao longo do show, junto com Adam Holzman). Nick Beggs segue Marco Minnemann e a música vai embora por diversas passagens, deixando a todos ansiosos pelo próximo lançamento. E então vêm “No Part of Me” e “Raider II” (ambas do último álbum), com solos e passagens de guitarras por Niko Tsonev e Steven Wilson que são melódicos e viajantes. E acaba a primeira parte. Então a banda, ovacionada e chamada sobe de novo ao palco e manda “Get All You Deserve” (do primeiro álbum), onde todos colocam máscaras e soam bem agressivos. Do jeito que começaram o show, eles terminam. Um a um sai do palco desconstruindo a camada sonora vagarosamente e encerrando com a bateria o que foi um show estupendo. Então Steven Wilson sobe novamente, se comunica com o público e questiona porque não tinha tanta gente como na Venezuela, México, Argentina, sendo que ele pedia silêncio para ouvir as respostas, cuja a mais interessante e divertida foi algo do tipo “Porque quem não veio são idiotas!” O que fez todos rirem, até Steven, que considerou a melhor reposta, então ele fez o último bis sem projeções, sozinho, com um violão na mão e tocou duas músicas do Porcupine Tree, que foram cantadas de cabo-a-rabo: “Lazarus” (do álbum “Deadwing”) e “Trains” (de “In Absentia”). Ele apresentou a banda toda, dizendo que são músicos extraordinários e que ele os terá em seu novo álbum novamente e é um prazer estar com eles em estúdio e ao vivo. Agradecimentos de todos e mais ovações da platéia, mas aí o show já estava encerrado de vez, duas horas e meia após de seu início e enquanto tinha gente lá, projeções voltaram a aparecer e os sons e ruídos voltaram a soar. E quem ficou tentou pegar autógrafos, enquanto fui embora, com um sorriso no rosto e uma viagem musical na minha cabeça.

Foi um show sem erros da banda, do público e da organização. Um contraste com o que ocorreu no mesmo fim de semana.