Chegar ao Memorial da América Latina nos dias 25 e 26 de abril já é uma experiência antes mesmo de qualquer portão se abrir. A fila se formava cedo, gente de camiseta preta de todas as origens, toda idade, toda subtribo do metal imaginável. Havia naquele calor de fim de abril paulistano uma energia que misturava ansiedade com pertencimento. São Paulo não perdoou no clima: o sol do sábado batia com vontade, e a sensação era de que o próprio tempo havia decidido participar do festival como atração extra.
A estrutura do evento estava à altura das expectativas. Os quatro palcos, Ice Stage e Hot Stage como principais, Sun Stage e Waves Stage completando a programação, funcionaram com poucas sobreposições que obrigaram escolhas difíceis. A área de alimentação estava bem distribuída, com sombra disponível e abastecimento de água nos pontos certos. Os banheiros, que em qualquer festival são o termômetro real da organização, passaram no teste. PCDs tinham acesso facilitado e a diversidade do público era visível e bonita: famílias com crianças nos ombros, veteranos que estavam lá desde o primeiro Bangers, adolescentes descobrindo o metal ao vivo pela primeira vez.
A grade de horários foi um dos pontos mais debatidos entre o público. Com quatro palcos rodando em paralelo das 12h às 22h, o festival poderia facilmente se tornar uma máquina de gerar angústia, aquela sensação paralisante de não saber para onde ir. Mas os conflitos mais sérios foram poucos, e em geral havia sempre uma boa opção em cada janela de tempo. Quando havia choque, era o tipo de choque bom: o que te faz perceber que o line-up é bom demais para um único par de ouvidos.
O sábado arrancou às 12h em quatro frentes simultâneas. Korzus no Ice Stage, Lucifer no Sun Stage, School of Rock no Waves Stage — e quem chegou cedo tinha o luxo de passear entre eles antes de a tarde esquentar de vez. Por volta das 13h o Hot Stage ganhou vida com o Evergrey, e o festival encontrou seu primeiro grande momento introspectivo do dia.
FEUERSCHWANZ
Substituindo o Fear Factory no slot do Ice Stage, os alemães chegaram com a missão de convencer uma plateia que talvez não os conhecesse bem. Missão cumprida com sobra. Com gaita de fole, flauta, violino e guitarras elétricas jogando juntos num caos perfeitamente orquestrado, o Feuerschwanz transformou o palco numa festa medieval. Faixas do recém-lançado Knightclub se misturaram com clássicos, e as Schildmaid, as guerreiras dançantes que compõem o espetáculo visual, garantiram uma dimensão cênica que nenhuma outra atração do fim de semana teve. Quando o refrão batia, o festival inteiro estava cantando em alemão sem entender meia palavra. É disso que festivais são feitos.
JINJER
Tatiana Shmayluk virou para a plateia e a plateia virou para ela. O Jinjer é uma das poucas bandas do metal atual com capacidade de parar completamente um festival, aquela sensação rara de que todo mundo decidiu prestar atenção ao mesmo tempo. Alternando entre guturais pesadíssimos e vocais limpos de uma delicadeza desconcertante, Tatiana redefiniu o que se espera de um show ao vivo naquela tarde. A banda toda estava no nível máximo, e o número de celulares levantados dizia tudo: todo mundo queria guardar aquilo, porque sabia que estava vendo algo especial.
KILLSWITCH ENGAGE
O metalcore de Massachusetts chegou sem avisos e sem cerimônia. O Killswitch Engage é daquelas bandas que não precisam de contextualização: os riffs são imediatos, a energia é total, e Jesse Leach tem uma presença de palco que preenche qualquer espaço. O set transpirou urgência do começo ao fim, alternando brutalidade e melodia com a eficiência cirúrgica que é a marca registrada da banda. Um dos shows mais sólidos do sábado, o tipo de performance que converte indiferentes em fãs.
BLACK LABEL SOCIETY
Zakk Wylde chegou como sempre chega: com a expressão de quem veio fazer seu trabalho, e seu trabalho é ser um dos maiores guitarristas do metal. O Black Label Society entregou um show de blues pesado, riffs gordos e solos que tinham começo mas pareciam não precisar de fim. Uma hora e quinze minutos que passaram como vinte. É o tipo de show que você não descreve para quem não foi, porque parece exagerado. Não estava.
IN FLAMES
Talvez a atração mais aguardada do sábado pelos fãs do melodeath sueco clássico. A banda entrou no palco com a consciência de que carrega um peso enorme nas costas — The Jester Race, Whoracle, Colony — mas soube equilibrar legado e presente com inteligência. Faixas antigas foram recebidas com coro coletivo e levantadas de braço; as mais recentes mostraram uma banda que ainda tem algo a dizer. Anders Fridén estava afiado vocalmente.
ARCH ENEMY
O headliner do sábado encerrou o dia como um furacão calculado. Trinta anos de carreira e uma estreia histórica: Lauren Hart pisava pela primeira vez num palco brasileiro como vocalista do Arch Enemy, e o público tratou de fazer dessa noite algo que ela não vai esquecer tão cedo. Em determinado momento do show, a emoção tomou conta dela de verdade. Não era performance, era gratidão: a de alguém que percebe, ali na hora, que está sendo recebida de braços abertos numa cidade que já tinha seu coração entregue à banda há décadas. O set foi generoso e bem construído: “Ravenous”, “War Eternal” e “Nemesis” dividiram espaço com “To the Last Breath”, a nova música já gravada com Lauren, que ganhou sua estreia ao vivo aqui em São Paulo. “Yesterday Is Dead and Gone”, “The Eagle Flies Alone” e “No Gods, No Masters” completaram uma lista que equilibrou nostalgia e presente com inteligência.
Se o sábado foi a explosão, o domingo foi a celebração, e havia uma leveza característica do segundo dia: a de quem já sabe que está vivendo algo especial e quer aproveitar cada minuto sem desperdiçar energia. Era impossível olhar em qualquer direção sem ver uma camiseta do Angra. O Memorial acordou devagar às 12h, com Project46 no Ice Stage, Visions of Atlantis no Sun Stage e School of Rock no Waves Stage rodando simultaneamente, e foi esquentando progressivamente ao longo da tarde, até chegar na temperatura certa para a noite.
VISIONS OF ATLANTIS
Abertura do Sun Stage no domingo com energia que o horário não previa. Clémentine Delauney e Michele Guaitoli formam uma das duplas vocais mais equilibradas do metal sinfônico atual, e o show provou isso logo cedo. O que surpreendeu foi o público: o Sun Stage já estava cheio às 12h, com uma multidão que claramente havia chegado cedo por conta da banda, e que correspondeu com entusiasmo a cada faixa do aclamado Pirates. Uma das grandes surpresas positivas do fim de semana, aquele show que você não sabia que precisava até acontecer.
PRIMAL FEAR
Ralf Scheepers e Mat Sinner chegaram para fazer o que o Primal Fear sempre faz: power metal alemão de alta octanagem, executado com precisão e entregue com prazer. “Nuclear Fire”, “Seven Seals” e “Destroyer” foram algumas das faixas num set que pareceu curto por ser bom demais. Scheepers, aos 61 anos, soa igual ou melhor do que em qualquer registro de estúdio, e isso, ao vivo, num festival, numa manhã de domingo, é uma das coisas mais gratificantes que o metal pode oferecer.
ROY KHAN
Poucos momentos do festival tiveram a carga emocional do show solo de Roy Khan. O ex-vocalista do Kamelot, dono de uma voz que moldou uma geração inteira de fãs do power metal europeu, entregou um set de clássicos que fez o Sun Stage parar no tempo. “Ghost Opera”, “The Haunting” e “March of Mephisto”, esta última com a participação especial de Alex Krull, vocalista do Atrocity e Leaves’ Eyes, soaram como cartas ao passado, sem nenhum ranço de nostalgia vazia. Roy Khan ainda está na plenitude da voz, e isso ficou mais do que evidente.
NEVERMORE
A pergunta que todo fã carregava na entrada era inevitável: como o Nevermore soa sem Warrel Dane? A resposta que Jeff Loomis e Van Williams entregaram no Bangers foi corajosa e honesta. Berzan Önen, o vocalista turco escolhido via audição aberta, não tenta ser Warrel Dane. Tenta honrá-lo. Loomis estava irrepreensível nas guitarras, como sempre. O show deixou no ar uma mistura de saudade, admiração e esperança, que talvez seja o único equilíbrio possível aqui. A banda retornava ao Brasil pela primeira vez desde 2006. Vinte anos depois, o Memorial recebeu o Nevermore como se nunca tivesse ido embora.
AMARANTHE
Energia, produção visual impecável, melodias que grudavam antes mesmo de terminar. O Amaranthe trouxe o que a banda sueca sempre traz: um show calculado para funcionar em festival, com três vocalistas que se revezam em estilos tão distintos que cada música parece três em uma. O público entrou na proposta sem resistência, e o resultado foi um set que agradou do fã de longa data ao recém-convertido. Num domingo de festival, era exatamente a dose certa de adrenalina para a reta final da tarde.
NOTURNALL
O Noturnall chegou ao Bangers com a confiança de quem rodou o mundo e voltou diferente — maior, mais seguro, mais afiado. Thiago Bianchi está num momento vocal impressionante. A recepção da plateia confirmou o que a cena já sabe: o Noturnall é um dos nomes mais importantes do metal brasileiro hoje. Naquele slot da tarde, representaram o país com mérito.
SMITH/KOTZEN
Adrian Smith e Richie Kotzen são individualmente extraordinários. Juntos, são uma conversa. O Smith/Kotzen entregou um set que parecia ao mesmo tempo ensaiado e espontâneo, harmonias vocais impecáveis, solos que se entrelaçavam sem disputar espaço, a química de duas pessoas que claramente se respeitam de verdade. O encerramento com “Wasted Years”, num arranjo que é ao mesmo tempo reverência e reinterpretação, arrancou um coro do Memorial que não esquece tão cedo. Ter Adrian Smith, homem do Iron Maiden, cantando em São Paulo numa tarde de domingo é o tipo de coisa que você precisa parar um segundo para assimilar antes de gritar junto.
WITHIN TEMPTATION
Sharon den Adel comanda o palco com uma autoridade que não precisa de volume, embora o volume também estivesse muito presente. O Within Temptation construiu uma experiência cinematográfica do começo ao fim: iluminação integrada, telões que amplificavam cada emoção, produção que elevou o padrão do que se espera de um show naquele palco. “Resist”, “Faster” e “Whole World Is Watching” soaram devastadoras ao vivo. Uma hora e quinze minutos que passaram como quinze minutos. Difícil escolher um ponto alto quando o show inteiro é o ponto alto.
ANGRA REUNION
Duas horas e quinze minutos. Esse é o tempo que o Angra teve para celebrar os 25 anos de Rebirth, e cada minuto foi usado com a consciência de quem sabe que está fazendo história. A apresentação em duas partes funcionou como um verdadeiro tributo à trajetória da banda. Primeiro, o Angra revisitou sua fase atual, marcando também a estreia de Alírio Netto nos vocais, antes de mergulhar de vez na nostalgia com a aguardada reunião da formação Nova Era, trazendo Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt, Felipe Andreoli e Aquiles Priester ao mesmo palco.
Ver as duas gerações dividindo o palco foi uma daquelas experiências raras em que emoção e técnica disputam atenção, e as duas vencem. “Nova Era”, “Rebirth” e “Acid Rain”: o Memorial cantou cada verso em uníssono, enquanto pairava no ar algo difícil de explicar, mas fácil de sentir: orgulho. O Angra encerrou os dois dias de festival como só o Angra poderia fazer, lembrando ao Brasil e ao mundo por que segue sendo um dos maiores nomes da história do metal.
Na saída do segundo dia, com os ouvidos zumbindo e as pernas pesadas, havia aquela sensação que só grandes festivais conseguem produzir: a de que valeu cada minuto. O Bangers Open Air 2026 foi maior do que a soma das partes. Foi a prova de que o Brasil tem público, tem estrutura e tem paixão para receber o melhor que o metal mundial tem a oferecer.
Fotos: Bárbara Matos. Texto: Priscila Ramos
































































































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